Canções de Apartamento – Tempos de Pipa

 Canções de Apartamento, 1. Tempos de Pipa

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Mas tudo bem
O dia vai raiar
Pra gente se inventar de novo
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Lembro-me muito bem da primeira vez que escutei aquela voz melancólica e serena. Lembro-me como, num primeiro momento, eu não as assimilei por estar com a mente concentrada no coração apertado e a dor lacerante que o atormentava.

Lembro-me do aconchego e do silêncio de seu corpo. De como, pela primeira vez em toda minha existência medíocre, o consolo foi um abraço apertado e palavras que não foram ditas.

Lembro-me que, naquele dia, eu não chorei. Mesmo que chorar parecesse ser a única coisa que pudesse fazer.

Quando lhe contei, naquele tom baixo de quem confidencia um segredo, que por mais que um nó tivesse se formado na minha garganta eu não conseguia derramar um lágrima sequer, ele respondeu-me com aquela voz petulante de quem acha que tem as respostas pra tudo.

– Mas é claro que não, você sabe que apanharia se chorasse por causa de homem.

E eu ri, fraco e desanimadamente, mas ri.

Por muitas horas, naquela tarde de janeiro, aquelas foram as únicas palavras que trocamos.

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Quando você vem ou não?
O que você quer de mim?
Deixo por aí
O que você tem?
De onde você é?
Pode me esquecer
Se você quiser
Ou se deixar chover
Se você vier
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Para que algumas cenas lhes façam sentido, é preciso que algumas coisas sejam explicadas. Primeiramente, essa não é uma história de começo, mas de fim. De fim e de recomeço, de ciclos intermináveis, de alegrias profundas e dores mais profundas ainda.

É uma história sobre pessoas que mantém as mãos sangrando de tanto catar os cacos de sua alma espalhados pelo chão. É uma história de pessoas solitárias e de coisas que ninguém quer.

É uma história onde a paz é encontrada no meio da dor, e que os momentos bons são tão esporádicos que possuem a preciosidade maior que qualquer outra coisa, e ao mesmo tempo são tão frágeis que parece que no menor dos movimentos, pode se partir e desvanecer.

As lágrimas que chorei poderiam encher o rio Amazonas, enquanto as que ele chorou, transbordariam o Atlântico.

E essa história começou em janeiro, no dia em que tudo acabou. No dia que a única opção que me era viável era cometer um assassinato. O assassinato de um sentimento que tinha cultivado com carinho, o assassinato de algo que tinha lutado com todas as minhas forças, por quem tinha feito das tripas coração.

E onde que ele entra nessa história? Bom, ele não foi o motivo de minha dor e sequer o causador dela. Ele foi o cara que me estendeu a mão, que brigou comigo e me obrigou a ir ao seu encontro, foi o cara que me abriu os olhos e disse “eu te avisei”, mas que também disse “eu passei por isso sozinho, sei como dói, e não vou deixar que se torne alguém como eu”.

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O que você é, enfim?
Onde você tem paixão?
Segue por aí
Eu não sou ninguém demais
E você também não é
É só rodopiar
Em busca do que é belo e vulgar
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Engana-se quem acredita que a partir daí tudo se tornou mil maravilhas. Pessoas quebradas possuem partes afiadas e, lutando contra nós mesmos, houveram momentos em que nos machucamos. Tanto eu a ele quanto ele a mim.

Essa não é uma história com vilões e mocinhos definidos, não estou escrevendo nenhum romance água com açúcar ou novela das oito. Ninguém aqui é completamente bom ou mau.

Estou escrevendo sobre pessoas reais, com dúvidas, problemas e dores reais. Sobre pessoas egoístas e altruístas ao mesmo tempo e que lutam contra seus próprios demônios enquanto buscam algo que sequer sabe nomear.

Estou escrevendo sobre gente que comete erros, mas que continuam vivendo um dia de cada vez e que assume cada um de seus defeitos com a cabeça erguida. Que não se esconde atrás de máscaras ou mentem sobre o que são, mas sabem omitir como ninguém.

E para acompanhar essa história como trilha sonora, está aquela voz melancólica e serena que escutei a primeira vez naquela tarde de janeiro em que tudo começou e terminou ao mesmo tempo. E que cada uma das músicas, em algum momento que se transcorreu ao longo de todo o tempo que essa história perdura, foi a música que definiu aquele momento.

Porque não existe uma música só que seja capaz de definir a nossa montanha russa, mas sim uma música para cada reflexo.

E é assim que tentarei lhes contar essa história, com essas músicas, as minhas memórias e meus sentimentos. E não lhes prometo ser fiel a cada acontecimento, porque há momentos em que não saberei dizer se foi sonho, realidade ou se algo foi distorcido. Mas isso não significa que será menos precioso ou sublime, pois torta ou não essa ainda, no fim das contas, é uma história de amor e pessoas quebradas.

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Mas tudo bem
O dia vai raiar
Pra gente se inventar de novo
E o mundo vai nascer de novo
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Continua…


Julho é o Mês do Rock e as divas do Rotaroots sugeriram a blogagem coletiva sobre “a primeira vez que escutei minha banda favorita”. Eu já tinha escrito esse texto, mas ele se encaixou tão perfeitamente com a proposta que estou ressuscitando (pra ver também se me inspiro a  escrever os outros capítulos). Espero que gostem, comentem! E me mandem seus links também! 🙂
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16 Discussion to this post

  1. Conheci o Cícero este ano e me apaixonei pelas canções dele, principalmente porque tem uma pegada de Los Hermanos!
    Com relação aos erros, devo dizer, todos cometem, todos tem de cometer, todos cometerão, e a partir daí os erros serão guardados e utilizados como exemplo do que não se fazer.

    Identidade Aleatória

    • Jade Amorim disse:

      Andressa, Cícero é lindo mesmo, mas não o acho muito parecido com Los Hermanos, Cícero é mais melancólico . E concordo plenamente sobre os erros, pelo menos a gente sabe como não fazer na próxima, né?
      obs: não consigo entrar no teu blog.
      Beijos.

  2. Antes de ler esse texto eu já estava quebrada, talvez por motivos parecidos, mas depois de lê-lo estou aos cacos no chão. Mas isso não vem ao caso.
    Jade, nunca mais abandone o seu blog, você tem escrito cada vez melhor e com mais intensidade, Parabéns!

    • Jade Amorim disse:

      Ariana, não fique tão abalada. Eu sei como se sente, mas tudo vem com uma resolução no final.Pode deixar que eu não tenho a mínima intenção de abandonar o blog novamente. <3

  3. Adorei o tema desse mês vou responder com certeza e boa escolha CICERO 🙂
    http://depois-do-comeco.blogspot.com.br

  4. Fábio Alves disse:

    Embora não seja o q costumo ouvir, gostei da música. Ah, e seu blog é mto legal! Gostoso de ler. 😉

  5. Cah Martins disse:

    Esse post tá lindo! *-*

    Adorei o jeito que vc escreveu, descrevendo os sentimentos. AI QUE LINDO!

    Blog Subexplicado

  6. Maria Midlej disse:

    Que delicia de ler! hahahaha
    Ameeeeeeeeeeeeeeeeeeeei >.<

    E to apaixonada pelo Canções de Apartamento. Não me canso desse disco rs

    beijo!

    Cansei de Inventar:http://canseideinventar.blogspot.com.br/
    Facebook: https://www.facebook.com/Candeideinventar?fref=ts

  7. Jeniffer Yara disse:

    Histórias sobre tudo isso sempre me encantam. E me fazem refletir sobre a minha própria.
    Que bom que voltou a escrever <3 E QUE LAYOUT LINDO DAQUI *O* ♥

    Beijos

  8. Leon K. Nunes disse:

    Nada como histórias entrecortadas, com dores e elipses, sem mocinhos nem vilões…

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