Ele não tem cara de artista

Chegou fazendo piada, a voz esganiçada e rindo. Tinha porte bom, o corpo corpulento de alguém que foi atlético no passado. Vinha acompanhado da mulher, uma figura diminuta e de olhar dominante.

Por mais que risse das próprias piadas, os olhos azuis encobertos por grossas sobrancelhas levemente grisalhas estavam sérios e cautelosos. Discretamente ele escaneou cada um de nós como um cordeiro que analisa o predador a procura da melhor maneira de escapar.

Seu nervosismo era tão perceptível quanto o vento frio que sacudia as janelas, as mãos não paravam quietas e os pés alternavam de posição constantemente. Parecia querer responder tudo de maneira extremamente correta e formava uma linha rígida com os lábios enquanto formulava as respostas para questões mais contundentes e invasivas. Muitas vezes pediu a opinião da esposa e apresentou-se temeroso à reação da mesma ao dizer algo, esposa essa que vez ou outra intrometia-se na coletiva.

Demonstrava domínio sobre sua arte, suas influências e sua vontade de influenciar. Parecia ter uma relação complicada referente ao dinheiro, explicando que a arte no estado ainda é pouco valorizada, é preciso correr atrás.

Mas o que ele poderia fazer? Aos 57 anos, Adilson Schieffer assumiu com um riso nervoso “faz parte da minha vida, não sei fazer muitas coisas além disso”.

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2 Discussion to this post

  1. Adorei seu texto! Beijos flor.

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