Yujeong, Yunsu e as nossas horas felizes

Esta é a primeira vez – de muitas ainda por vir, espero eu -, que escrevo uma resenha para o blog da minha coleguinha Jade, a maravilhosa. Além disso, publicar resenhas minhas de modo geral é outra coisa inédita na minha vida e que está me deixando um pouco mais nervosa do que eu gostaria de admitir. Então vamos logo e sem mais delongas falar sobre o livro Nossas Horas Felizes, da autora sul-coreana Gong Ji-Young.

O fim da tarde escuro era quebrado apenas pelos raios alegres e coloridos dos postes de rua e dos letreiros das lojas – pelo que eu estava vendo, a chuva caía apenas dentro daquela luz. Afinal, na escuridão, não tínhamos ideia do que realmente caía sobre nós.

Nossas Horas Felizes traz a história de Mun Yujeong, professora universitária de artes e ex-cantora pop de classe média alta perto dos 30 anos de idade. Depressiva, ela tentou tirar a própria vida três vezes. De início ela se mostra como uma adulta imatura, superficial, egoísta e que afoga as mágoas no álcool. Mas logo nos primeiros capítulos, Yujeong expõe os fatores que levaram a sua condição mental completamente desestabilizada.

A tia Mônica, uma freira, é o único integrante da família com quem Yujeong tem uma relação mais próxima. Assim, depois da terceira tentativa de suicídio da sobrinha, tia Mônica assume a responsabilidade por Yujeong. Em troca dos cuidados, ela pede que a sobrinha a acompanhe em um serviço social de visitação a presos condenados à pena de morte.  

Tia Mônica apresenta Yujeong ao criminoso Jeong Yunsu, condenado à morte pelos crimes de assassinato e estupro, mas que também tem um passado repleto de abusos físicos, psicológicos e emocionais. Durante os primeiros encontros, a única a falar é tia Mônica, mas depois as circunstâncias mudam e Yujeong passa a visitar Yunsu sozinha e regularmente. Então os dois começam não apenas a se conhecer, mas a descobrir algumas horas felizes em meio ao caos em que vivem.

Algumas horas, todas as quintas.

A narrativa alterna entre os capítulos, que são o ponto de vista da Yujeong e as Anotações Azuis. Essas anotações são escritas pelo Yunsu, onde ele explica toda sua história de vida. Para mim, o passado dos dois e também as conversas que eles têm – que chamam de “conversas verdadeiras”-, discute muito mais do que apenas a questão de enxergar algo de bom quando tudo ao redor é hostil. Ao ler suas histórias e as conversas, fica bem claro que a condição mental e a personalidade de ambos são frutos do meio em que foram criados – assim como a de todos nós.

Yujeong tem desequilíbrio emocional porque mesmo com sua condição financeira estável. Sempre sendo comparada com seus irmãos “bem-sucedidos”, humilhada por uma mãe tão instável quanto ela, ao ponto dela se sentir incapaz de demonstrar afeição, ela também carrega o trauma de ter sido estuprada.

Yunsu cresceu sem mãe, era espancado pelo pai que também mal-tratava o irmão mais novo dele, Eunsu. Na infância os garotos passaram por abusos em orfanatos. Tudo isso levou Yunsu a se envolver desde cedo no mundo criminal e dele não sair. Ambos personagens de Nossas Horas Felizes foram criados sem uma base emocional e psicológica sólida e agora por isso são punidos pela sociedade, seja por meio do julgamento e ausência de apoio da família, do Estado, ou do próprio desequilíbrio mental sem tratamento.

Trabalhos braçais não pagavam nem uma fração do que se consegue cometendo alguns roubos

No entanto, o que mais me chamou atenção em Nossas Horas Felizes é que nenhum dos dois personagens principais se coloca como vítimas. Eles simplesmente se aceitam dessa maneira desestruturada que são. A conclusão é tão simples assim: ambos são seres problemáticos, mas que no fundo têm um coração bom. Não que cheguem a abraçar ou exaltar esse lado sombrio, mas eles acham uma maneira de conviver com ele, até porque o lado bom está apenas ofuscado, mas ele está lá, ele existe.

E, quando penso sobre a minha vida, concordo com isso. Fui presa por dirigir bêbada recentemente. Mas não sou louca. Sou uma idiota. Yunsu parecia nervoso, sentado ali, mas soltou uma gargalhada quando eu disse idiota.

Nossas Horas Felizes discute muito mais do que o amor à vida. Gong Ji Young escreve neste livro também sobre questões como a própria depressão e o suicídio, as cobranças sociais – principalmente sobre as mulheres-, além da sociedade como ela é construída, com enfoque em suas falhas. A autora também discute o perdão, a justiça, responsabilidade, paciência, religiosidade, família e claro, o amor.

A ficção imita a realidade

Eu só gostaria de falar que eu não tinha a mínima ideia que o assunto deste livro, e consequentemente desta resenha, estariam tão atuais na Coreia do Sul como estão ultimamente. Nesta semana, o cantor T.O.P. (Choi Seung Hyun) foi internado por causa de uma overdose de remédios, após ter se envolvido em escândalo relacionado a uso de drogas e consequente expulsão do serviço militar obrigatório que cumpria.

Pelas últimas notícias divulgadas, ele já não se encontra mais em estado grave, foi até mesmo transferido para um outro hospital (COM 20 MIL REPÓRTERES EM CIMA DELE, POR FAVOR, IMPRENSA, COISA FEIA). De maneira alguma, esse post foi escrito com a intenção de relacionar as coisas. Mas o que eu achei importante mencionar é que o caso do T.O.P. só mostra como os assuntos como transtornos mentais inclusos no livro há 12 anos – o original foi lançado na Coreia do Sul em 2005 -, continuam tão atuais e continuam precisando de mais diálogo.

Eu desejo que o T.O.P. se recupere disso e depois, por meio de ajuda médica, da família e amigos. Além disso, eu também queria dizer que, mesmo quando as coisas parecem o fim, na esmagadora maioria das vezes, nós estamos enganados e há maneiras de como lidar com situações como estas, sim. Pode até parecer que não, mas tem.


Nome: Nossas Horas Felizes
Autor: Gong Ji-Young
Editora: Record
Páginas: 279
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Sinopse: Yujeong é uma jovem da alta sociedade coreana que, indiferente a tudo e a todos é incapaz de se entender com a própria família, não consegue encontrar um sentido para sua vida. Depois de três tentativas frustradas de suicídio, ela acaba definhando entre o álcool e o desespero. Seus familiares, por outro lado, não se esforçam para entendê-la, a não ser sua tia, a irmã Mônica, com quem sempre teve uma ligação especial. Disposta a fazer o que for preciso para que Yujeong volte a sentir vontade de viver, a freira sugere à sobrinha que as duas façam semanalmente uma visita a um preso no corredor da morte. E então elas conhecem Yunsu, um homem que anseia deixar este mundo por acreditar que só assim conseguirá se redimir de seus pecados. Apesar de sua origem humilde, ele e Yujeong têm algo em comum: um triste passado de abusos físicos e psicológicos.

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13 Discussion to this post

  1. Bruna Morgan disse:

    Eu já queria ler esse livro, depois de ler sua resenha aaaaaaaaaa a vontade quadruplicou! *o*
    Fale um pouco de você no final das resenhas, please, fiquei procurando o nome da amiga da Jade, e só fiquei sabendo pelas respostas dos comentários huahuha
    Aguardo mais resenhas suas por aqui <3

  2. Vanessa disse:

    Interessante, nunca tinha lido nenhum livro parecido. Infelizmente os transtornos mentais parecem afetar cada vez mais pessoas no mundo. Esse mundo está cada vez mais caótico e desestruturado :/

  3. Nath disse:

    Eu já tinha amado esse livro no outro post só pela história, e gostei ainda mais por causa da resenha. Com certeza lerei!

    Beijos

  4. Tatiane disse:


    Que resenha maravilhosa ♥
    Eu não conhecia esse livro, mas depois da sua resenha eu já adicionei ele na minha lista. Acho que nunca li um livro com esses temas. Fiquei curiosa pra saber o que acontece com eles.
    Espero que o T.O.P se recupere logo 🙂
    adorei o post ♥
    Parabéns
    ótima quinta
    bjo

    • Bárbara Cavalcanti disse:

      Ai gente, todas as vezes que vocês falam da resenha em si, meu coração dá um saltinho mais alto <3 muito obrigada mesmo, de coração!! (: e um ótimo fds pra você! :*

  5. Cara, que temas fortes! Nunca tinha ouvido falar do livro, mas deve ser mesmo uma leitura que nos faz parar pra pensar e refletir sobre várias questões importantes que devem ser mais discutidas. Sobre o caso do TOP, eu fiquei sabendo e poxa, é tão triste, né? Espero também que ele se recupere logo!
    Um beijão,
    Gabs | likegabs.blogspot.com ❥

    • Bárbara Cavalcanti disse:

      O que eu gostei é que ela não só coloca os personagens pra contar as histórias, mas pra falar o que eles sentem e acham de tudo. E sobre o TOP: menina, minha vontade é de trancar ele na minha casa e não deixar ninguém chegar perto do meu homem, até ele melhorar – e até ele tomar juízo tb. Porém, a única coisa que podemos fazer é torcer!
      Beijo pra vc tb :*

  6. Mayara Vieira disse:

    Achei bem forte, ainda não conhecia. Mas adorei a indicação! Bjs

    http://www.mayaravieira.com.br

  7. Mari Dahrug disse:

    Não conhecia ainda e adorei a indicação.Parece ser uma lição de vida mesmo, acho que precisamos desse tipo de leitura.

    Beijos
    Mari Dahrug
    https://www.rabiskos.com.br/

    • Bárbara Cavalcanti disse:

      Para escrever essa resenha, eu li uma entrevista da autora onde ela disse que “estar perto da morte promove a vida”. Ela realmente visitou presos no corredor da morte quando estava lidando com a depressão, é uma lição de vida mesmo, como você disse.
      Lê e depois me conta o que achou! :*

  8. Ual, que tema forte e sim concordo, continua super atual. Fiquei com imensa vontade de ler o livro. É diferente do que estou acostumada e toca em assuntos bastantes sérios. Vou colocar na minha lista *.*
    Charme-se

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