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A mente humana em 'O Sorriso da Hiena'

Terminei de ler O Sorriso da Hiena lá pelas 3h da madrugada e simplesmente fiquei encarando o teto do meu quarto por um tempo para absorver o que eu tinha acabado de ler. Eu tinha exatos três pensamentos:

  1. Esse fim está bem digno de novela mesmo e
  2. a Globo comprou os direitos de adaptação, então tomara que fique em algum nível entre Capitu e Ligações Perigosas (esta última na verdade eu não assisti, mas li algumas entrevistas e dizem que foi sensacional e etc)
  3. Tem um argumento que esse autor usa para sustentar essa história que vai me incomodar pro resto da vida.

Mas vamos por partes. Desculpem mesmo gente, mas esse post vai ficar gigante porque O Sorriso da Hiena, minha gente, eis um livro no mínimo medonho. Ah, e o autor é muito que lindo, vale a pena ressaltar.

A sociedade está confusa, dispersa

No suspense psicológico de Gustavo Ávila, o psicólogo infantil William desenvolveu sua tese de doutorado em uma análise de casos de crianças que passaram por algum tipo de situação dolorosa e questiona como o caráter dessas crianças iria se desenvolver conforme elas crescessem.

E então aparece David. Quer dizer, na verdade David é o primeiro a aparecer.

É que o começo do livro é a descrição de como ele viu seus pais serem assassinados na sua frente, quando ele tinha apenas oito anos de idade. Agora, para descobrir se ele se tornou uma pessoa má por causa disso, ele quer repetir a situação com outras crianças e entregar elas aos cuidados de William, para que ele possa analisá-las e enfim descobrir se tem um tratamento para o mau.

Em contrapartida, há também a narrativa do detetive Arthur atrás de desvendar os assassinatos em série. Junto a isso, há o dilema ético e moral de William ao não entregar David à polícia para conseguir comprovar seus estudos. É na mesma linha de algumas conversas que tive algumas vezes com médicos sobre testes humanos ou os avanços científicos na época do nazismo. E tudo que se passa na mente perturbadora de David.

Desbravar o labirinto da mente exige um nível elevado de autoconhecimento.

— O Sorriso da Hiena

A narrativa de O Sorriso da Hiena é realmente muito bem escrita. Gustavo Ávila sabe muito bem criar suspense e descrever as cenas, até as mais medonhas, além de conseguir relacionar todas as histórias – o que eu acho um desafio e tanto. Além disso, embora não seja meu tipo de livro (e eu não sei porque eu insisto em pegar livros que não são meu estilo), reconheço que quem gosta de suspense policial vai curtir, sim senhor.

Até aí, tudo bem.

P O R É M

Pelo amor do amor não me odeiem, mas é que, sei lá, acho que deve ser porque, como jornalista e ainda por cima com uma experiência razoável em casos policiais, eu fiquei com um pé atrás sobre alguns argumentos que o Gustavo usou para sustentar a história dele. Eu estou me sentindo uma chata, afinal é um livro de ficção e na ficção está tudo liberado. MAS TÁ ME INCOMODANDO TANTO VOU CHORÁ.

O psicólogo tem uma insatisfação particular, porque nunca conseguiu comprovar suas teorias. Enquanto ele fazia a pesquisa, ele não tinha contato pessoal com os casos que descreveu. Além disso, ele sustenta que ninguém que tivesse passado por problemas como esses iria querer "reviver sua história, enterrada embaixo de camadas e mais camadas de sessões de terapia".

Achei meio meh. E com meio meh, eu digo muito meh.

Primeiro: eu estou achando que não é tão complicado assim achar pessoas com as características em comum que ele precisa para comprovar sua tese. Eu que sou eu, alguém super insignificante na fila do pão, conheço pelo menos umas três crianças na mesma faixa etária que vivenciaram seus pais serem assassinados.

Infelizmente, essa situação se repete com uma frequência perturbadora. Eu queria estar brincando, mas é só pesquisar por "na frente do filho de XX anos", que a internet vai fornecer um número até assustador de crianças, na mesma idade, que foram vítimas em casos assim.

Além disso, no livro, a polícia reclama que o número de assassinatos está muito alto. Será que realmente, em nenhum desses casos, não tinha nenhuma criança? Nenhumazinha? Eu não estou conseguindo me convencer de que ele precisava de um assassino em série para conseguir as vítimas, não senhor.

Tá certo que o acesso às vítimas já é algo a se questionar. Porém, a meu ver, William tem uma carta na manga que ele poderia muito bem usar porque iria servir, não só para ele, mas para a vítima também: ele é psicólogo. Se tem um profissional adequado para lidar com isso é um psicólogo. Essa parte eu já não sei como funciona, mas como que as vítimas de crimes assim recebem tratamento? Ele não poderia, sei lá, criar uma Associação para ajudar vítimas especificamente de crimes assim? Como que funcionam essas coisas afinal????

E mais uma coisa: eu estou encrencando com essa afirmação: "enterrada embaixo de camadas e mais camadas de sessões de terapia". O OBJETIVO DA TERAPIA NÃO É MEIO QUE JUSTAMENTE DESENTERRAR AS COISAS? MAS QUE DE QUE LINHA TEÓRICA É ESSE PSICÓLOGO? AS DÚVIDAS SÓ AUMENTAM.

Por tanto minha conclusão é: William foi é trouxa. ¯\_(ツ)_/¯

Nós somos os únicos responsáveis pelas nossas interpretações.

— O Sorriso da Hiena

O Sorriso da Hiena
Título da obra: O Sorriso da Hiena
Autoria: Gustavo Ávila
Páginas: 266
Gênero: Suspense, Mistério
Editora: Verus Editora
ISBN: 9.78857686594E+12
Ano de publicação: 2017
Onde encontrar: SkoobGoodreads
Onde comprar: AmazonSaraivaSubmarino
Sinopse: É possível justificar o mal quando há a intenção de fazer o bem?Atormentado por achar que não faz o suficiente para tornar o mundo um lugar melhor, William, um respeitado psicólogo infantil, tem a chance de realizar um estudo que pode ajudar a entender o desenvolvimento da maldade humana. Porém a proposta, feita pelo misterioso David, coloca o psicólogo diante de um complexo dilema moral. Para saber se é um homem cruel por ter testemunhado o brutal assassinato de seus pais quando tinha apenas oito anos, David planeja repetir com outras famílias o mesmo que aconteceu com a sua, dando a William a chance de acompanhar o crescimento das crianças órfãs e descobrir a influência desse trauma no crescimento delas.Mas até onde William será capaz de ir para atingir seus objetivos?Em O sorriso da hiena, Gustavo Ávila cria uma trama complexa de suspense e jogos psicológicos, em uma história que vai manter o leitor fisgado até a última página enquanto acompanha o detetive Artur Veiga nas investigações para desvendar essa série de crimes que está aterrorizando a cidade.

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23 comentários
  • Bárbara Cavalcanti

    Gente, só para deixar registrado aqui: eu amei cada palavra de todos os comentários. Muito obrigada pelos elogios, pelos incentivos, pelo view e pelo tempo que vocês dedicaram lendo e comentando essa resenha. Eu fiz questão de pedir desculpas pelo atraso nos comentários em cada post, porque realmente, me perdoem, esses últimos meses foi uma loucura e acabei negligenciando muito o blog 🙁 Mas obrigada, obrigada de coração mesmo!!!

    Responder
  • Marta Izabel

    Oi, Barbara!
    Já estou de olho nesse livro do Gustavo Ávila já tem um tempinho agora estou mais curiosa ainda para saber mais sobre esse livro!! E fiquei bem surpresa com a informação que a Globo comprou os direitos de adaptação, espero que seja um sucesso!!
    Bjoss

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    • Bárbara Cavalcanti

      Somos duas então torcendo pelo sucesso dessa adaptação, Marta, somos duas!!! Lê o livro e me conta o que achou <3 <3
      (e desculpa o atraso nas respostas, desculpa mesmo!!)

      Responder
  • Nicole Longhi

    Esse livro está na minha lista desde o lançamento.
    Tenho visto tantas resenhas sobre ele, que estou divida entre as opiniões e realmente quero muito ler para poder ter a minha própria para poder argumentar.
    É meu gênero preferido.
    De longe, a sua resenha foi a mais sincera e que mais gostei até agora haha

    beijos

    Responder
    • Bárbara Cavalcanti

      Obrigadão, obrigada mesmo!! <3 <3 <3 Lê e me conta, eu vou amar saber sua opinião!!
      (e desculpa o atraso nas respostas, desculpa mesmo!!)

      Responder
  • Marlene Conceição de Jesus

    Oi.
    Eu adoro livros de investigação.
    Tenho certeza que em um outra vida eu trabalhava no ramo.
    Eu adorei sua análise critica e sinceridade, realmente a cosia toda de crianças tem sentido em tudo, eu curtir bastante e essa é uma obra que irei conferir com toda certeza.
    A narrativa parece ser o ponto alto da história, o que e particular ja me agradou, enfim, não vejo a hora de ler.
    Bjs.

    Responder
    • Bárbara Cavalcanti

      Ai, leia!!! Leia e goste muito!!! Obrigadão!!
      (e desculpa o atraso nas respostas, desculpa mesmo!!)

      Responder
  • Luíza Fried

    Oie!
    Bom, eu até gosto de policiais mas eu sempre fico confusa em algum ponto da história. Esse não parece ser tão confuso assim e tem uma história boa, diferente e um tanto quanto sombria né? Você foi bem crítica no seu ponto de vista, o que não é ruim mas acredito que eu nem me ligaria nesses pontos que você falou. É uma leitura de fato curiosa. Boa dica!

    Responder
    • Bárbara Cavalcanti

      Estou super feliz que as pessoas mesmo assim não estão desistindo de ler esse livro. Te desejo uma mais que ótima leitura ;3;
      (e desculpa o atraso nas respostas, desculpa mesmo!!)

      Responder
  • VANESSA BRUNT

    Em primeiro lugar, preciso ressaltar o quanto quanto queria abraçar você bem fortão! Primeiro pela criticidade tão repleta de verdade e entrega, segundo pelas entrelinhas reflexivas que sempre formula e terceiro por passar tudo isso com uma dedicação e conexão do âmago ímpar. Fiquei louca pela análise feita e, mais ainda, para conferir a obra. Concordo com diversos dos seus pontos e já imagino que vou ficar tão incomodada quanto, mas, nesses casos, acabo tentando enxergar muitos detalhes como metafóricos, para visualizar outras angulações. No entanto, como são teses de sustento e detalhes com os quais também não concordo, então acho que pode não ter 'tanto jeito de ver outros ângulos que diminuam o tal'. Afinal, caráter, para mim, tem mais a ver com índole, com enxergar ganhos nas perdas, apesar dos impactos reais e indiscutíveis das experiências. Mesmo assim, a obra aparenta trazer demais questões nos arredores do tópico principal, o que pode ser válido, não é? Enfim, a resenha está maravilhosa, como tudo por aqui!

    http://www.semquases.com

    Responder
    • Bárbara Cavalcanti

      MAS MENINA PRECISO RESSALTAR QUE QUEM QUER MUITO TE ABRAÇAR FORTÃO SOU EU SINTA-SE ABRAÇADA E ESTOU GRITANDO VIA CAPS LOCK E SEM PONTO NEM VÍRGULA PORQUE NÃO HÁ OUTRA MANEIRA DE REAGIR A ESSE COMENTÁRIO
      (e desculpa o atraso nas respostas, desculpa mesmo!!)

      Responder
  • RUDYNALVA CORREIA SOARES

    Barbara!
    Gosto dos livros no estilo, onde podemos confrontar determinados comportamentos do que é ou não ético, principalmente relacionado a pesquisas ‘científicas’ que poderão possibilitar comportamentos futuros sobre determinado assunto e posicionamento.
    Se os protagonistas são cativantes e bem estruturados pelo autor, fica ainda melhor de fazer a leitura.
    Questionar algumas colocações em um livro policial, é normal.
    Desejo uma semana de muito amor no coração!
    “Inteligência não é não cometer erros, mas saber resolvê-los rapidamente.” (Bertolt Brecht)
    Cheirinhos
    Rudy
    TOP COMENTARISTA DE SETEMBRO 3 livros, 3 ganhadores, participem.

    Responder
    • Bárbara Cavalcanti

      Também gosto muito de livros assim, sabia? Essa experiência não mudou minha opinião sobre esse tjpo de livro, inclusive já estou lendo outro assim ahahhahah
      E uma semana de muito amor para você também!! <3
      (e desculpa o atraso nas respostas, desculpa mesmo!!)

      Responder
  • Talita Oliveira

    Primeiro de tudo, sua sinceridade foi o ponto chave dessa resenha (e tantas outras…), há um tempo que ouço falar sobre esse livro, mas sem qualquer aprofundamento e, o que fica claro a partir dessa resenha é que mais importante do que analisar os fatos isolados, é pegar a trama por um todo, e identificar os pontos soltos.
    Bem, gostei do modo como você abordou as partes negativas do livro!!
    Ainda assim, me interessei por outros aspectos do livro, como o tema e a narrativa, espero que não me decepcione nesses quesitos.
    Bjs e que resenha TOP! 😀

    Responder
    • Bárbara Cavalcanti

      AI MAS QUEM É TOP É VOCÊ SUA LINDA <3 <3 <3 <3
      (e desculpa o atraso nas respostas, desculpa mesmo!!)

      Responder
  • Barbara Bueno

    Oie

    Eu gosto bastante de policial , mas esse não me chamou a atenção e parece ser muito sinistro.
    Essa é a segunda resenha que estou lendo desse livro esses ultimos dias e a primeira realçou pontos negativos na forma de investigação e agora você realçou outros poréns :/

    Mas sempre tem que gosta.Tomara que a Globo faça uma boa adaptação.

    Beijos

    Meu mundinho quase perfeito

    Responder
    • Bárbara Cavalcanti

      Menina, acredita que eu to colocando minhas apostas nessa adaptação da globo também? HAHAHHAAHHA
      (e desculpa o atraso nas respostas, desculpa mesmo!!)

      Responder
  • Leslie Leite

    Ontem mesmo eu já havia lido uma resenha desse livro e fiquei curiosa, já que suspense/thriller psicológico é meu tema literário favorito.
    O argumento para sustentar a história é bem "meh" mesmo. Porém, creio que o psicólogo poderia querer juntar um grupo de crianças para começar a estuda-las desde o começo em que viram os pais sendo assassinados. Talvez ele não quisesse um grupo de crianças que já tivesse passado pela situação. Mas… é claro que nada disso justifica deixar um assassino em série agir. Assim como a resenha que li ontem, a sua tbm me fez perceber que a base da história do livro tem alguns furos.
    Esse livro me lembrou a série Dexter. Fico pensando até que ponto os meios justificam os fins. Mas, de qualquer forma, ainda quero lê-lo para tirar mais conclusões.
    Beijo, http://www.apenasleiteepimenta.com.br

    Responder
    • Bárbara Cavalcanti

      Ai sim, queira ler, por favor!!
      E assim, até mesmo isso dele querer juntar crianças para começar a estudá-las desde o começo (é horrível de dizer), mas eu continuo achando muito fácil, sabe? Eu sou jornalista e já fui a inúmeras cenas de crime, com as crianças ainda lá… mas enfim, como eu disse, o único parâmetro que eu tenho são minhas próprias experiências que são limitadíssimas.
      Mas espero que você tenha uma ótima leitura!!!
      (e desculpa o atraso nas respostas, desculpa mesmo!!)

      Responder
  • Rackel

    Oi! Nossa que história interessante, a tese dele é lógica, algumas pessoas se revoltam e outras conseguem lidar com seus traumas. E realmente a terapia é para desenterrar os anseios para trata-lo . Só você lendo para entender o contexto. Bjos ❤

    Click Literário

    Responder
    • Bárbara Cavalcanti

      "só você lendo para entender o contexto" SIIIIIIM MIL VEZES SIIIIIIM. eu fiquei morrendo de medo das pessoas que lessem minha resenha deixassem esse detalhe extremamente importante de lado, mas NÃOOOO <3 <3 <3
      (e desculpa o atraso nas respostas, desculpa mesmo!!)

      Responder
  • Gabriela Soares

    Adorei a resenha e olha, apesar dos pontos negativos que você citou, eu me interessei bastante, viu HAHA a história me chamou bastante atenção e eu curto muito suspense policial, então acho que vale dar uma chance.
    Um beijão,
    Gabs | likegabs.blogspot.com ❥

    Responder
    • Bárbara Cavalcanti

      super vale a pena!!! lê e me conta o que achou, eu vou amar!!
      (e desculpa o atraso nas respostas, desculpa mesmo!!)

      Responder

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